Os Ciclos da Violência

Por que as mulheres permanecem em uma relação de violência?
As diversas causas atribuídas à violência influenciam os sentimentos e comportamentos da mulher nessa situação, conduzindo a diferentes resultados.
Embora não seja possível determinar a causa da permanência da mulher em uma relação marcada pela violência, o conhecimento de alguns fatores envolvidos pode ajudar na compreensão do processo e de sua dinâmica.
História familiar
♦ Modelo familiar violento como importante fator de risco para a escolha de um parceiro violento e repetição do modelo parental
♦ Vivências infantis de maus-tratos, negligência, rejeição, abandono e abuso sexual
♦ Casamento como forma de fugir da situação familiar de origem, onde o parceiro e o relacionamento são idealizados
Auto-estima
♦ Auto-imagem negativa, levando a mulher a ter dúvidas acerca de seu valor, capacidades e desempenho
♦ Sentimento de desvalorização
♦ Incerteza quanto a se separar de seu companheiro, mesmo que temporariamente
Situação emocional
♦ Padrão de afeto deprimido e sentimentos de inferioridade, insegurança, desamparo e retraimento social
♦ Projeção de expectativas irreais de afeto, proteção, dependência e estabilidade no casamento
♦ Esperança quanto à possibilidade de mudança nas atitudes do companheiro
♦ Insegurança quanto a sua capacidade emocional de sobreviver sem um companheiro e  sem um pai para seus filhos
♦ Sentimento de responsabilidade pelo comportamento agressivo do companheiro
♦ Tendência a atribuir e justificar o comportamento violento do companheiro por fatores externos, desresponsabilizando-o (dificuldades financeiras, desemprego, uso de drogas, etc.)
♦ Tendência a valorizar excessivamente o papel de provedor e "bom pai" no companheiro, justificando a tolerância à violência (ou em detrimento de outras necessidades).
Situação econômica
♦ Carência de apoio financeiro e de oportunidades de trabalho, ocasionando a dependência econômica e a falta de autonomia
♦ Medo das dificuldades para prover o seu sustento econômico e o de seus filhos, após a separação.
Situação emocional
♦ Medo das represálias por parte do companheiro
♦ Crença de que o companheiro cumprirá as ameaças em relação a si, aos filhos e aos seus  familiares, tais como: morte, perda da guarda dos filhos, destruição da casa, transtornos  no local de trabalho, invasão da casa após a separação, entre outras.
Carência de recursos sociais e familiares
♦ Descrédito e falta de apoio dos familiares, levando ao isolamento social
♦ Ausência de uma rede de apoio eficaz no que se refere à moradia, escola, creche, saúde e equipamento policial e de justiça.
O ciclo da violência tem três fases distintas, as quais variam, tanto em intensidade como no tempo, para o mesmo casal e entre diferentes casais e não aparecem, necessariamente, em todos os relacionamentos.
Fase um: o aumento da tensão
Ocorrem pequenos, mas freqüentes, incidentes de violência. É mais fácil a mulher negar a sua raiva, atribuindo cada incidente à uma situação externa. Tenta acreditar que tem algum controle sobre o comportamento do agressor. Esta aparente aceitação estimula-o a não controlar a si mesmo, as tentativas de humilhação psicológica tornam-se mais fortes e as ofensas verbais mais longas e hostis. A mulher não consegue restaurar o equilíbrio na relação, ficando cada vez menos capaz de se defender. O homem aumenta a opressão, o ciúme e a possessividade quando observa que ela está tentando afastar-se. Os atos da mulher estão sujeitos a interpretações equivocadas. Ele vigia todos os seus passos. Qualquer situação 
externa pode atrapalhar o equilíbrio e a tensão entre os dois torna-se intolerável.
Fase dois: o incidente agudo da violência
Esta fase é mais breve que a anterior e a seguinte, caracterizando-se pela incontrolável descarga de tensão acumulada na fase um e pela falta de previsibilidade e controle. O que marca a distinção entre as fases é a gravidade com a qual os incidentes da fase dois são vistos pelo casal.
A raiva do homem é tão grande que o impede de controlar seu comportamento.
Inicialmente, tenta dar uma "lição" à mulher, sem a intenção de causar-lhe dano, e termina quando crê que ela aprendeu a "lição". O motivo para dar início às agressões raramente é o comportamento da mulher, mas um acontecimento externo ou um estado interno do homem.
A mulher, ocasionalmente, provoca incidentes na fase dois. A antecipação do que possa ocorrer leva ao estresse psicológico: ela torna-se ansiosa, deprimida e queixa-se de sintomas psicossomáticos. Seus sentimentos, nessa fase, são de terror, raiva, ansiedade, sensação de que é inútil tentar escapar. Com freqüência, a opção é encontrar um lugar  seguro para esconder-se.
Fase três: o apaziguamento/Lua-de-mel
O agressor sabe que o seu comportamento foi inadequado e demasiadamente agressivo, e tenta fazer as pazes. É um período de calma incomum. O agressor a trata carinhosamente, pede perdão e promete que os episódios de violência não mais ocorrerão. Ele acredita que não agredirá mais, crendo que poderá controlar a si mesmo, e pensa que a mulher aprendeu a "lição".
A mulher agredida precisa acreditar que não sofrerá mais violência. O agressor reforça a crença de que realmente pode mudar. Há predominância da imagem idealizada da relação, de acordo com os modelos convencionais de gênero. O casal que vive em uma situação de  violência torna-se um par simbiótico, tão dependente um do outro que, quando um tenta separar-se, o outro torna-se drasticamente afetado. Esta fase parece ser mais longa que a fase dois, porém mais curta que a fase um.
Em diferentes combinações de casal para casal, estas fases resumem o que se chama de dinâmica da violência. A compreensão é muito importante para uma abordagem adequada, permitindo ao profissional não atuar vitimizando a mulher e culpabilizando o homem, mas compreendendo sua interação e interdependência na relação violenta.
Em uma sociedade organizada com base na hierarquia entre os sexos, onde a mulher está em posição desfavorável em relação aos homens são estabelecidas normas e valores que criam limitações à liberdade e pleno desenvolvimento das potencialidades de homens e mulheres.
Todo o processo de prevenção não ocorre de maneira homogênea. Existem avanços e retrocessos, êxitos e obstáculos. Por sua complexidade, o processo de prevenção requer um exercício de muita paciência,
perseverança e, sobretudo, a colaboração e integração dos profissionais de diferentes áreas e da comunidade.

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