Um Relato Incrível


Eu vou contar a minha história para que outras saibam que, infelizmente, não estão sozinhas nessa dor. Às vezes o relato de outra dá-nos força para fechar um ciclo de dor e finalmente ter a coragem de renascer. Muito se fala sobre estatísticas, sobre leis e muito se descreve o estupro, mas não o que fica após esse ato. Poucas se atrevem a quebrar o silêncio por medo, vergonha ou porque, às vezes, simplesmente não há mesmo, quem queira nos ouvir. Hoje eu resolvi falar.
O machismo me matou pela primeira vez quando eu tinha 5 anos. Meu tio abusou de mim sexualmente. Eu morri nesse dia. Eu não sobrevivi, ninguém sobrevive. Nós morremos e se temos sorte, renascemos das cinzas algum dia. Mas ninguém consegue renascer sem a ajuda de alguém, de um psicólogo, de uma amiga, de um amigo, namorado, marido, esposa, enfim, alguém que pela primeira vez, realmente queira nos ouvir e que acredite em nós. A sociedade não acredita. Ela sempre questiona, nunca ouve, só condena. Toda vez em que alguém se atreve a contar a sua dor, a sociedade imediatamente faz aquilo que sempre fez: pensar em si mesma. Todos imediatamente se mostram mais preocupados em debater se o pedófilo pode mesmo ser considerado como tal, se ele é genial demais para ser rechaçado, se as pessoas devem se sentir culpadas por desfrutarem de algo que ele realizou, se devem já não mais falar com ele e etc.
Esse comportamento me enfurece extremamente. Parem de invisibilizar a vítima, de fazer de conta que no dia-a-dia vocês dessem o mínimo para elas! Vocês não se importam! Se se importassem lutariam contra o machismo. Contestariam algum momento, em que tivessem tido a impressão de que uma criança tivesse precisado de ajuda, mas vocês não tivessem entendido a mensagem, não tivessem percebido a gravidade do problema. Ensinariam às crianças que seus corpos pertencem somente à elas, que ninguém tem o direito de tocá-las, não importa de que maneira seja, contra a vontade delas. Ao invés disso pessoas adultas acham normal invadirem os corpos infantis, principalmente os negros. Exigir que crianças aceitem contato físico, seja ele um beijo ou um abraço ou pegar nos cabelos, contra a sua vontade, é transmitir a mensagem, que adultos tem poder sobre seus corpos e vontades. E tabuizar partes íntimas desses corpos é transmitir a mensagem, que a quebra desse tabu, mesmo sendo contra sua vontade e forçada pelo outro, deve ser mantida em segredo.
Pedófilos são pessoas doentes e perigosas, que precisam de acompanhamento psiquiátrico e que precisam ser mantidos distantes de crianças. Você se indigna com os casos de pedofilia, você acha que eles merecem prisão perpétua, serem linchados, esquartejados? Eu lhe entendo, eu também tenho essas fantasias, e ela nasce do meu sentimento de impotência. A sociedade no entanto não é impotente, ela pode mudar estruturas que possibilitam e apoiam esse tipo de violência. Não acredite que as minhas afirmações são um convite para linchamentos e atos de „justiça com as próprias mãos“, não utilize a minha dor para saciar sua sede de sangue.
Infelizmente eu sei que já é tarde para denunciá-lo, e o pior de tudo é que eu sei que a minha família não vai ficar do meu lado. Perdoem a minha covardia, eu não tenho forças para isso. A minha família na verdade sempre soube, mas preferiu fingir que não sabia. E agora que a religião deles lavou-os de todos os pecados, eu não tenho a menor chance de exigir que ele seja afastado ou denunciado por outras meninas. Eu não receberia o menor apoio, quase todos os homens da minha família abusaram de suas enteadas, meu próprio pai estuprou minha irmã mais velha. Eu cresci ouvindo a minha mãe dizer, como o meu pai tinha destruído o casamento dela por ter violentado a minha irmã. Sim, eu aprendi muito cedo que, quando uma criança sofre abuso, o sonho de perfeição de outra pessoa é destruído e que isso é tão importante, a ponto de a vítima ser esquecida.
Os anos foram se passando e eu tinha diariamente a prova do que aconteceria comigo se eu ousasse procurar ajuda: ela seria negada e eu passaria a ser odiada por toda a família, seria obrigada a suportar a presença do meu agressor e passaria a ser vista como o problema da família.
Todo final de ano eu me desesperava com medo de que o meu tio viesse para as festas, a pressão era tão grande que eu vomitava constantemente, tinha ataques de pânico e aos oito anos eu pensei pela primeira vez em suicídio.
Depois de um tempo meu tio se mudou para muito longe e já não podia mais vir para as festas de fim de ano. A distância fez com que eu pelo menos não tivesse que temer tanto, além do mais, eu já estava me tornando adolescente, ou seja, deixava de ser interessante para ele.
De algum modo eu consegui renascer, ainda que o autoritarismo e repressão da minha mãe me torturasse diariamente. O machismo a ensinou, que ela precisava de um homem para existir, que ela não tinha valor sem um homem e o racismo ensinou a ela que ter sido escolhida era a prova de que sua negritude não era assim tão desprezível. Para a minha mãe o casamento era a prova de que ela existia e isso ela defenderia com unhas e dentes.
Fora de casa eu era constantemente lembrada do perigo, quase diariamente eu era assediada por algum pedófilo. Nos ônibus homens assediavam meninas negras e pobres, ninguém as defendia, e se acaso alguém o fizesse, a resposta era que „essas daí são safadas, rapaz, começam cedo“. Eu sabia que era verdade… Eu as via descendo de cabeça baixa, e tentava as ignorar; é dolorido demais reconhecer-se na dor alheia…
Quando eu tinha quinze anos um paquera me convidou para sair, eu não falei nada para a minha mãe. Para ela, namorado significava sexo e sexo significava gravidez e gravidez indesejada significava mais vergonha, mais despesas e mais sofrimento para ela. Nessa noite ele me violentou e eu morri pela segunda vez. Eu disse não, mas um não, não basta. Eu fiquei quieta, paralizada, meu corpo já estava acostumado à violência. A letargia só me deixou quando ele me deixou perto da minha casa. Eu rezava para que ele realmente me deixasse em casa e não me deixasse ali, naquele lugar deserto ou que pior, me matasse. A culpa me corrói até hoje, eu me pergunto se tudo talvez não teria acontecido se eu tivesse gritado, batido nele, chorado. Eu me sentia culpada por ter desejado ter um namorado como todo mundo, por ter acreditado nele. Eu sentia que deveria saber melhor, por causa do abuso. Mas como eu poderia ter aprendido alguma coisa, se eu nesse tempo todo tinha tido que esquecer tudo, para não enlouquecer? É por isso que querem nos calar, para que nos sintamos sozinhas e sozinhas continuemos fragilizadas.
Depois desse episódio eu me sentia ainda mais distante do mundo, mais suja, e menos normal que nunca. Durante toda minha infância eu tinha desejado mais que nunca ser „normal“, eu queria desejar me casar como minhas amigas, mas eu associava casamento ao sofrimento, à prisão e à tortura psicológica. Queria paquerar como todas as outras, mas a verdade é que eu entrava em pânico toda vez em que um homem ou menino me olhava. À partir daquele momento tornar-me invisível era a coisa mais importante para mim, ser percebida significava para mim, correr o risco de morrer mais uma vez. Eu procurei ajuda religiosa, procurei a Deus tentando me purificar, tentando conseguir consolo e refrigério, mas tudo o que consegui foi outra vez silêncio e uma sessão exorcista, depois de uma crise, que tinha me deixado sem capacidade de articulação, com crises de choro e alucinações. Essa foi a terceira vez em que eu morri… Ver a minha crise e meu grito de socorro ser interpretado como uma possessão demoníaca, me marcou demais. Esse episódio despertou em mim e desperta até hoje, os mesmos sentimentos que o abuso e o estupro.
Além de tudo isso, eu ainda tinha e tenho que suportar o racismo diário, a hipersexualização do meu corpo. Os assédios constantes de homens que veem em mim a encarnação da luxúria e das suas fantasias sexuais. É machismo e racismo numa combinação que torna a minha vida insuportável.
Aos dezenove anos, longe da minha família, estudando noutra cidade, eu tive outra crise muito forte e pela primeira vez eu conversei com uma amiga sobre o que ocorreu. Eu tinha começado a namorar e voltado a perceber o meu corpo, que eu tinha mantido insensível a todo e qualquer desejo sexual. Eu tinha aprendido que ser desejada sexualmente significava violência e muita dor. Todo o terror que eu tinha reprimido, até então, voltou com fúria e eu entrei outra vez em crise. Desde então a minha vida se alterna entre uma crise e outra, entre ataques de pânico que me deixam incapaz de me levantar da cama por uma semana, entre tentativa de suicídio, auto-mutilação, depressões. Eu tenho a impressão de que meu corpo não me pertence, e diariamente esse pensamento é confirmado nas mídias, nas ruas. Eu tenho medo do meu corpo e do que sinto, eu odeio a minha imagem no espelho, pois ela me lembra de ainda existir e existir para mim, é na maior parte do tempo, sofrer.
Um estupro não termina quando o agressor larga os nossos corpos, ele continua quando não acreditam em nossos relatos, quando duvidam da nossa dor, quando não lutam pelo fim do machismo na sociedade, quando insinuam que nossos corpos existem para serem consumidos, quando nos negam a possessão de nossos próprios corpos e quando tentam nos calar.
O machismo mata todos os dias.
http://blogueirasnegras.org/2014/03/12/ninguem-sobrevive-a-violencia-sexual/

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