Viagem Sem Fim! (conto)

A sensação.

Estava nervosa. Olhava através da cortina, escondida, receosa de que alguém a visse. Sentia a presença deles... sabia que estavam por perto, embora não soubesse onde. O dia parecia nublado, mas não tinha muita certeza. Talvez nem estivesse. Como saber? Ilusão e realidade misturavam-se em sua mente.
Ela respirou fundo, sentindo dor na boca do estômago. Estava com fome; aquela mesma fome que lhe dilacerava a alma havia um tempo. Mas aquele não era o seu maior problema, precisava sair e resolver logo, antes que ficasse ainda pior. Mas, estava com medo. Sentia-se vigiada.
Andou pelo quarto, agitada. Tocou a maçaneta e constatou que estava trancada. A chave não estava ali... estava trancada por fora. Esmurrou a porta com raiva, mas não emitiu som. Olhou para os braços com hematomas, as mãos finas, trêmulas... precisava resolver aquilo. Precisava desesperadamente. Mas, eles não compreendiam. Estava trancada no quarto, sem ajuda, sem ter como resolver o problema.
Karine sentou-se na cama, cabeça entre as mãos, apavorada com a sensação de taquicardia que agora invadia o seu peito. Suava frio, a boca estava seca. Podia jurar que havia mais alguém naquele quarto. Olhos invisíveis que não lhe perdiam de vista. Já havia gritado, batido na porta, chorado, mas ninguém lhe dava ouvidos.
Num ímpeto, revirou as gavetas da cabeceira a procura de um pino ou uma pedra... nada! Os que encontrou estavam vazios. Haviam consumido tudo! Malditos! Seu corpo inteiro tremia. Logo a sensação de enjoo fez com que se sentisse zonza e ela se deitou, olhando fixamente para o teto. Suava frio. Passava a língua entre os lábios como forma de mantê-los umedecidos, sentindo que tudo girava ao redor.
Não saberia dizer quanto tempo estava ali. Os dias se confundiam. Sentia-se num labirinto cada vez mais escuro e sem saber onde estava a saída. Queria tanto estar bem, precisava ficar bem.
A porta se abriu de repente e ela se sentou assustada:
__ Trouxe algo para você comer. _ disse-lhe a mãe com voz doce. __ Você precisa se alimentar, Karine!
__ Você me trancou aqui! _ ela se queixou, olhando para a porta entre aberta.
Ivone encarou a filha de modo entristecido e com voz firme, respondeu:
__ Sim, tranquei! E vou trancar quantas vezes for preciso! _ colocou a bandeja sobre a cama e se retirou do quarto, trancando a porta novamente.


 Sonhos esquecidos

A primeira vez foi somente por curiosidade. Queria saber como era fumar um baseado, se realmente dava aquela onda toda que todos diziam. Estava com treze anos, era tímida e complexada devido as várias acnes que povoavam sua face.
Depois virou hábito.
Fumava para relaxar, sentir-se descontraída. A única queixa era o cheiro da maconha nos cabelos e nas roupas. Mas, disfarçava bem. Durante um bom tempo o baseado serviu-lhe como companheiro.
Karine sonhava ser aeromoça. Queria viajar pelo mundo, conhecer pessoas e lugares, poder aprender de outras culturas. Era a filha caçula entre quatro irmãs.
Aos dezesseis anos já não era a moça cheia de acnes de antes... havia se transformado numa adolescente voluptuosa e atraente, apaixonando-se perdidamente por Maurício. E o namoro engrenou. Sonhava em casar-se com ele, viajar com ele, viver com ele... tudo era Maurício! E com ele descobriu a cocaína... para sentir-se mais segura, com coragem para a primeira noite de amor que tiveram.
Karine o amava mais que tudo na vida. Sonhava com o dia em que ele a pediria em casamento...
Mas isso nunca aconteceu. Mauricio a abandonou meses depois, sem maiores explicações, como se nada tivesse acontecido, ficando com algumas de suas amigas sem fazer cerimônia.
Karine sentia que o mundo havia acabado. Nada tinha graça, cor ou luz. Maurício havia destruído o seu coração. Todos os seus sonhos românticos haviam desaparecido. Era uma dor insuportável, a dor da rejeição... e assim, como que para esquecer a dor, passou a usar mais assiduamente a cocaína. Sentia-se mais leve, mais alegre, menos triste. Os pensamentos vagavam, o corpo flutuava, ninguém mais importava, uma euforia incontrolável, como se tudo ganhasse novas cores, mas que se prolongava por algumas horas apenas; tendo que consumir novamente e em maior quantidade.
Aos poucos foi se desinteressando pelos estudos, não via mais sentido em passar horas numa sala de aula ou em qualquer outra coisa. Passava muito tempo no quarto, olhando as fotografias de Maurício nas redes sociais, sorridente, ao lado de outras garotas.
Seus pais não deram muita importância, acreditando tratar-se de uma fase depressiva somente. Não notaram seu olhar distante ou sua constante ausência à mesa do jantar, acreditando que logo passaria.
E no decorrer das semanas Karine consumia cada vez mais... precisava! Não conseguia olhar-se no espelho. Não viu seus cabelos perderem o brilho, suas unhas encurtarem, sua pele ressecar. Também não via necessidade de banho, perfumes, nada.


O fundo do poço.

Numa tarde de inverno foi encontrada desacordada em seu quarto, os braços arroxeados, sangue escorrendo das narinas, corpo frio. Overdose.
A perda de peso e o desleixo já eram notadas por todos, mas ninguém queria admitir algo do gênero. O choque familiar foi enorme. Não compreendiam como Karine podia fazer aquilo e não souberam como tratar o assunto.
A internação foi a primeira coisa que pensaram e fizeram.  E foram várias internações no decorrer dos cinco anos seguintes, com diversos tipos de tratamentos e tentativas, frustradas.
Karine passou meses nas clínicas, entre terapia ocupacional, desintoxicação e alimentação equilibrada. Quem a visse, diria que estava bem. Nestes períodos ela ganhava peso, ficava corada, falava pouco, mas se comunicava. Mas, algo dentro dela já não estava no lugar.
Tudo que pensava era ganhar alta e dar um pino. A sensação de estar limpa não era satisfatória e na maioria das vezes que conseguia alta, ainda no mesmo dia saciava o vício. Por mais que dissesse que não voltaria a usar, seus juramentos eram vencidos pela vontade. O máximo que conseguia ficar longe resumia-se a dois, três meses...
A fissura era maior que qualquer outro pensamento que pudesse vir a ter. E quando não havia dinheiro para comprar, vendia o que tinha de valor como, celular, tv, relógio... assim como não demorou muito para dar fim as coisas de casa. Não havia mais qualquer resquício de boa índole que lhe fizesse parar. Valia qualquer sacrifício para sentir-se bem...
Mas foi o crack o pior de tudo. Um novo amor, uma nova obsessão.
Num momento desesperado, sem condições de manter o vício, apresentaram-lhe o crack como opção mais barata e que daria uma viagem mais satisfatória. De repente tudo girava em torno da pedra... se antes, fumava e cheirava para sentir-se bem, segura e confiante, agora fumava para não sofrer de abstinência. O mundo cinza do crack, transformou-lhe completamente. Estava ausente de si mesma.
Mentia, roubava e enganava a todos ao redor. Passava dias sem aparecer em casa, fumando as malditas pedras... sentindo o seu mundo escurecer a cada dia.
Lembrava-se vagamente de como tinha sido, evitava os espelhos.
Sua pele estava estranha, envelhecida. Cabelos opacos. Os sonhos estavam esquecidos, não sabia mais quem era ou o que tinha sido no passado. Não lembrava como tinha ido para casa, quando, com quem...
Havia dormido em calçadas, apanhado de policiais e “cracudos”, havia dormido com estranhos em troca de pedras. Não havia mais o certo ou o errado, tudo o que precisava na vida era da fumaça que a tudo embaçava.
Olhava a comida sem vontade de tocá-la, mas talvez fosse a única forma de poder ganhar forças para fugir dali. Precisava desesperadamente da pedra... precisava daquela viagem ao mundo perdido de si.
A cocaína já não satisfazia há tempos. Sua vida era o cachimbo, a fumaça, a irrealidade de dias e noites acizentadas entre becos e vielas, esquinas e favelas, num mundo de ninguém. A fumaça que entorpecia, aquela breve euforia de tudo e de nada. E logo, o desespero por mais uma. E uma após outra, sem controle, sem pensar, num emaranhado difícil de encontrar início ou fim.
Karine... quem seria? Ela não saberia dizer. Estava cansada, muito cansada.
Olhou para a faca estendida no prato, para cortar o bife e pensou no sofrimento que trazia a toda família. Lembrou das palavras da mãe, do seu olhar triste, das brigas causadas pelo vício, a desestruturação que havia trazido. Quando estava limpa, mesmo que por algumas horas ainda sentia culpa por tudo aquilo, mas logo vinha o desejo enlouquecedor de não sentir absolutamente nada. Os culpados eram eles que não conseguiam compreender as suas necessidades.
Pegou a faca. Deslizou os dedos finos pela serra, delicadamente. Sentiu a frieza do metal. Parecia convidativo. Alisou o instrumento de corte como  quem acaricia um rosto. Podia sentir olhos atentos aos seus gestos, mas não havia mais ninguém ali. Ou será que havia? Ilusão e realidade eram suas companheiras.
Passou a faca vagarosamente pelo pulso, imitando o movimento de corte. Como seria a morte? Sentiria dor? O que seria o céu? Sim, o que seria o céu? Pois conhecia como ninguém o que era habitar todos os dias no inferno!
Sorriu, um riso torto, tímido.
Daria alívio à todos! Mas principalmente, estaria livre! Tudo deixaria de ser cinza. Já não sabia mais a cor do dia, então não faria mais diferença.
E disposta a terminar com todo o sofrimento, cortou o pulso. Foi um ato firme, embora tivesse as mãos trêmulas. A dor não pareceu incomodar... estava olhando o sangue, admirando sua cor, estava cinza! "Não deveria ser vermelho?" Não sabia.
Afundou a faca o quanto pode. Os olhos anuviaram. Parecia que o seu corpo havia recebido uma descarga elétrica, estava como que em choque. A mão trêmula deixou que a faca caísse e em seguida ela sentiu que tudo rodava. Estava como que girando num redemoinho que escurecia cada vez mais.
Quanto tempo mais até o fim? Não sabia. Despencou no chão ainda sentindo o teto rodar, como se o corpo fosse maior que tudo. Sua mente estava confusa, desorientada. Cerrou os olhos.
O último pensamento estava nela... na pedra! Aquela fumaça espessa e tão infame que lhe roubara as cores da vida, como se fosse possível sentir o aroma a invadir as narinas naquele momento, uma última vez...
FIM.


*Por favor deixem comentários.

Comentários

  1. Parabéns Mia Malafaia vc retratou a mais pura realidade do viciado, as dores, angustias desespero tanto do usuário como de seus familiares que não sabe como lidar com o assunto.
    Espero que pessoas que nunca tenha usado possa ler este conto para não embarcar nesta viagem sem volta
    Um forte abraço é que Deus te ilumine para que com o seu dom lindo que te agraciou em escrever vc possa retratar muito mais

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