DEPOIMENTOS

Lucinha...

"A violência nem sempre é tatuada na pele, as vezes é embutida na alma!"

Meu nome é Lucinha e esta é a minha história:

Casei com dezessete anos com toda a pompa e circunstância que uma noiva pode ter; véu, grinalda, flor de laranjeira, festa.
Mas logo na lua de mel tive a minha primeira experiência com a vida real...
Artur era um homem simpático, bom papo, do tipo que agrada logo no primeiro encontro. Fomos apresentados por meu irmão mais velho, Pedro; num torneio de futebol. Da troca de olhares ao namoro foram apenas alguns dias, logo estávamos fazendo planos para o casamento e em um ano estávamos casados.
Em minha família, sexo sempre foi um assunto tabu. As amigas de escola nada sabiam, senão o que ouviam aqui e ali de outras meninas ou de conversas soltas.
A virgindade era um troféu, eis a verdade. E isso não era diferente para Artur.
Havíamos tido uma linda festa de casamento e como toda jovem inexperiente eu estava apreensiva. Estava sem saber as cenas dos próximos capítulos, o que deveria fazer, o que aconteceria em seguida. Havia uma grande expectativa no ar...
Mas tudo saiu de contexto naquela noite. Durante muitos anos eu me questionei a respeito em silêncio... não tinha coragem de falar a respeito com ninguém. Eu não sangrei! Eu não era virgem! Foi o que eu ouvi após o ato sexual.
Artur ficou calado um tempo, depois ficou furioso. Acusou-me de tê-lo enganado... ofendeu-me. Eu queria falar, mas não sabia o que dizer. Tinha certeza de que nunca tinha feito nada, mas não sabia como contestar a ausência de sangue na relação sexual. Tudo que eu experimentei foi um grande incômodo entre as pernas e depois a sensação de que estava tudo fora do lugar.
Estava apavorada com a possibilidade de anulação do nosso casamento...
Era apaixonada por Artur e queria a todo custo reverter a situação de alguma forma, mas não havia o que fazer. Cada vez que mantínhamos relações era uma tortura. Artur não me perdoava (embora não houvesse o que perdoar).
Eu estava apavorada com o retorno para casa... como iria explicar aos meus pais que não havia sangrado na minha noite de núpcias? Como iria provar que nunca havia tido relações antes?
Voltamos para casa e Artur não disse absolutamente nada sobre o assunto aos meus pais...
Senti um grande alívio, mas logo entendi que viveria um martírio.
O homem gentil, simpático e carismático tornou-se um verdadeiro monstro.
Quase todas as noites eu era submetida a sessões de sexo cada vez mais degradante, e Artur parecia sentir prazer com aquilo. Era como se a minha dor fosse uma recompensa para ele.
Eu me calava, sofria em silêncio como que me auto punindo por algo que não fiz.
Já não sabia mais o que sentia por meu marido, se amor ou raiva.
Engravidei no terceiro mês de casada... a notícia foi recebida com grande alegria por meus pais, mas Artur, não.
Duvidou da paternidade... como se eu fosse uma prostituta.
Durante muito tempo da minha vida acreditei que tinha culpa em tudo aquilo. Passei os meses de gestação aos prantos, as minhas noites eram intermináveis torturas sexuais e quando finalmente meu filho nasceu, pensei que o meu sofrimento cessaria.
Mas a criança não havia puxado muito os traços do pai...
Tive uma crise de choro ainda na maternidade e tentei conversar com minha mãe sobre o que vinha acontecendo, mas ela atribuiu todo meu estado emocional ao parto... disse-me que logo estaria tudo bem e que os homens são assim mesmo. Eu devia ter paciência e ser uma boa esposa.
Artur sequer se aproximava do berço de nosso filho, era como se a criança não existisse.
Para todos, vivíamos o casamento perfeito. Artur era o exemplo fiel de chefe de família e bom pai, mas entre quatro paredes eu pagava um alto preço por uma ignorância chamada "virgindade".
Não demorou muito para as primeiras agressões físicas acontecerem... primeiro um puxão no cabelo, depois uma bofetada, mais a frente hematomas...
Já não havia como esconder da minha família o inferno que eu vivia.
Num gesto de desespero, confiei à meu pai tudo o que acontecia desde a minha fatídica lua de mel...
Lembro-me do semblante abatido de meu pai, constrangido por revelações tão picantes e ainda me recordo de seu olhar preocupado e tenso ao dizer que não me deixaria mais voltar para casa.
Foi a primeira tentativa de separação, mas Artur não aceitou que eu fosse de volta para a casa dos meus pais. Retirou-me de lá a força, enfrentando meu pai aos socos e para evitar que a situação se complicasse eu voltei para casa.
E naquela mesma noite soube o que era ser torturada... Artur não somente espancou, como estuprou e torturou até que eu jurasse nunca mais sair de casa.
Tenho as marcas no meu corpo até os dias de hoje.
E foi também nesta noite que comecei a tecer um pensamento nebuloso quanto ao meu estimado marido...
Meu filho tinha apenas seis meses quando derramei água fervendo no ouvido de Artur e fugi.
Fui presa, separada do meu filho, ignorada por minha família, julgada pela sociedade e pela justiça.
Não sei dizer qual inferno é pior, se o que vivi no meu casamento ou dentro do cárcere...
Mas hoje, posso dizer que existem marcas que ferem para sempre e que estão intrínsecas na alma.
Meu filho está com vinte e nove anos hoje, é um homem bom... meus pais já não fazem parte deste mundo e Artur embora com sérias sequelas, conseguiu refazer a vida com outra mulher.
Escrevi este relato de modo a dizer para todas as mulheres que sofrem caladas: NÃO SE CALEM!
NÃO ACEITEM!
Hoje sei que muitas de nós sofrem como eu sofri. Acusam-se do que não tem culpa. Aceitam rótulos e fetiches como normais. NÃO SÃO!
Hoje eu sei que muitas mulheres não sangram em suas primeiras relações sexuais e não são menos dignas devido a isso. Também sei que virgindade não é símbolo do caráter de ninguém,
Escrevi este relato da minha vida porque acredito que possa servir de alerta a outras mulheres.
Durante anos sofri a tortura de pensar que merecia ser castigada...
Não se deixem dominar por estes sentimentos... não permita que dogmas ou qualquer outro tipo de coisa impeça a sua felicidade.
Eu nunca soube o que era ter prazer até que um dia ousei conhecer o meu corpo. Fui vítima e também algoz de mim mesma, hoje sou livre, hoje sou eu mesma.
Obrigada.



*********************************************************************************




Maria...

"Alguns males permanecem dentro da gente, como que para nos lembrar que nem tudo são flores!"


Meu nome não é Maria... mas, prefiro que conheçam a minha história desta forma.
Devo dizer que não é fácil narrar estes fatos, mas aprendi que falando sobre eles, consigo expurgar muitos fantasmas.
Tenho exatos vinte e nove anos e quando tudo começou eu era apenas uma garotinha...
Quando se é criança tudo tem outra vertente, tudo é tão simples...
Sou filha caçula tendo mais três irmãos homens. Criada a pão de ló, como diria minha avó.
Não sei em que momento de nossas vidas o casamento de meus pais desandou, mas sei que se separaram quando eu tinha apenas cinco anos. Papai saiu de casa e então, passamos a vê-lo somente em fins de semana alternados.
Naquele tempo eu não entendia nada daquilo e achava divertido ter que me arrumar para sair com papai e meus irmãos... estávamos sempre eufóricos, pois sair de casa significava balas e doces. Lembro-me do algodão doce, da roda gigante do parque de diversões, dos sacos de pipoca, das promessas sobre irmos morar novamente na mesma casa...
Mas, algumas promessas permaneceram como promessas e nada mais.
Mamãe logo estava namorando e não demorou para se casar novamente. Anselmo era o seu nome!
Meus irmãos não criaram caso, ao contrário, encontraram no padrasto um companheiro para partidas de futebol ...
Não me lembro quando foi a primeira vez, mas sei que foi no banho. Não sei porque minha mãe não estava em casa, não me recordo. Só sei que foi no banho.
Lembro-me de estar no chuveiro e ele entrou.
Não lembro das palavras, eu era muito pequena e algumas lembranças foram apagadas. Mas sei exatamente o que ele fez.
Entrou no box, sem tirar a roupa e ensaboou as mãos de modo a fazer bastante espuma. E foi assim que iniciou os abusos...  ele deslizava as mãos ensaboadas pelo meu corpo, acariciava e em determinado momento penetrava-me, dizendo que era para "lavar direito."
Sei que na primeira vez tentei escapar, reclamei, mas nada pude fazer.
Anselmo parecia hipnotizado, soltava gemidos esquisitos, dizia coisas, mas eu não entendia o que estava falando. Queria que terminasse o banho, queria sair dali, mas ele me segurava.
E no fim, apertando o meu braço, lembro bem o que ele me disse: "Nenhuma palavra!" o tom era ameaçador.
Eu não sei ao certo o que ocorreu depois, sinceramente não lembro detalhes; mas silenciei.
Alguns dias depois, novamente no banho... depois, na minha cama... sempre penetrando com os dedos. No início, ele pareceu preocupar-se em não machucar, não sei... acho que foi isso. Mas depois, já não era tão cuidadoso.
Eu queria ir embora, pedi à papai que me deixasse morar com ele, mas foi em vão. Estava amedrontada, não sabia se podia falar, como falar. Anselmo dizia sempre que se eu falasse todos iriam morrer e eu iria ficar sozinha.
Dizia que fazia aquilo pro meu próprio bem...
Os abusos eram esporádicos, mas aconteciam sempre que eu estava sozinha em casa com ele. Em alguns momentos tentei não estar, pedia para que me levassem junto, pedia para ir para a casa de meus avós, mas na maioria das vezes minha mãe mandava que eu ficasse. Ali era minha casa, portanto era o meu lugar...
Se ela pudesse imaginar o quanto eu sofria. Algumas vezes eu chorei e até fiz pirraça para que não me deixassem em casa, mas tudo foi mal interpretado e muitas vezes apanhava de mamãe, que não compreendia meu desespero.
Os abusos continuaram.
Aos poucos fui me retraindo, não conseguia mais brincar, deixei de sentir interesse pelos estudos... deixei de ser uma garotinha agradável e passei a ser agressiva e arrumar confusão na escola. Queria que alguém olhasse pra mim, queria que alguém me ajudasse.
Era um pedido de socorro. Mas tudo que consegui foi repetir o ano letivo e várias surras de minha mãe, além do olhar decepcionado de meu pai. Ninguém procurou o real motivo daquilo.
Anselmo permanecia lá... senhor absoluto de tudo e de todos. Meus irmãos o adoravam.
Eu não tinha a quem recorrer.
Foram anos de silêncio e abusos... anos de solidão, dor e lágrimas. Se no início eu não falei por não saber como ou a quem recorrer, depois foi por medo e por último por vergonha.
Quando finalmente Anselmo saiu de nossas vidas eu já tinha doze anos... minha relação com minha  mãe estava irreversívelmente abalada, não tínhamos diálogo de mãe e filha, éramos duas estranhas.
Meu pai havia refeito a vida com outra mulher e tinha novos filhos, não era mais tão presente quanto antes.
A vida nunca mais pareceu normal. Cresci com a sensação de que me roubaram algo... era como se eu não fizesse parte de nada.
Até hoje tenho dificuldade para dormir... sempre deixo a porta entreaberta, não sei exatamente porque. Algumas vezes sonho com mãos deslizando pelo meu corpo, penetrando-me, invadindo minha intimidade e minha alma. Nunca tive coragem de contar para meus pais o que acontecia naquela casa quando eu estava sozinha com meu padrasto.
Faço terapia de grupo e tomo medicação contra ansiedade e depressão.
Não casei, não tenho filhos e possuo uma grande desconfiança do mundo...
Não sei exatamente o que é auto estima. Fico imaginando quantas "Marias" Anselmo não destruiu por aí... e quantos "Anselmos" temos a solta mundo a fora.
As minhas dores são as dores de muitas crianças. Escrevo isto no intuito de que os pais prestem mais atenção aos seus filhos, quem os rodeia, como se comportam. Não basta o passeio no parque, o pirulito ou o presente bonito no fim do ano... não basta!
É preciso entender que cada um tem uma forma de expressar o que sente e nem sempre será por palavras ou lágrimas. As vezes é no silencio que gritamos bem alto.
Eu só queria dizer que o mal existe e as vezes está debaixo do nosso nariz, fingindo-se de bem querer!
Eu sou Maria, mas poderia ser qualquer outro nome.


*********************************************************************************



Paula.

"Por fora bela viola e por dentro pão bolorento!"


O primeiro desentendimento se deu por ciúmes...
Eu tinha um belo corpo, estilo violão e gostava de usar decotes. Sentia-me mais poderosa quando usava um decote. Mas era perceptível no olhar de Bruno o quanto isto o contrariava.
No início ele não dizia nada... apenas olhava e logo desviava o olhar amarrando a cara.
Mas então, passou a reclamar e a pedir que usasse menos decotes.
Eu não via problema nisso. Não era nada indecente ao ponto de envergonhá-lo ou a mim.
Mas naquele dia, Bruno estava visivelmente mal humorado e não gostou da blusa que eu havia escolhido para irmos ao cinema.
Primeiro pediu que eu a trocasse, o que eu não fiz. Depois agarrou em meu braço e aos berros exigiu que eu trocasse de roupa.
"Você está me machucando" eu disse.
Ele continuou insistindo que eu tinha que trocar a blusa ou não sairia comigo "daquele jeito".
Cedi, para que o desentendimento terminasse.
Mesmo assim o clima não foi dos melhores depois disso.
Estávamos de casamento marcado para algumas semanas à frente...
Eu era apaixonada por Bruno, havia sido o meu primeiro namorado, o homem para quem entreguei a minha virgindade, com quem eu sonhava ter os meus filhos...
Mas o ciúme dele só fazia aumentar.
Primeiro foi devido as minhas roupas, depois foi em relação aos meus amigos... Bruno implicava com todos eles, principalmente os rapazes. Parecia que todos me desejavam... e as moças eram todas "vagabundas".
Não devia falar com fulano porque tinha tatuagem, não devia falar com ciclano porque trocava de namorado com frequência e assim por diante.
Eu achava que com o tempo e o casamento isto diminuiria.
Foi tudo uma grande ilusão minha.
Mesmo na festa de casamento Bruno deu uma crise de ciúmes...
Eu havia acabado de jogar o buquê e alguns amigos se aproximaram para dar os parabéns, abraçando-me e beijando-me normalmente como é de praxe.
Mas aos olhos de Bruno estavam se aproveitando da situação para "roçar"em mim...
Aproximou-se como se fosse meu proprietário e arrancou-me dali furioso.
As cenas se repetiram daquela forma por várias outras situações até que, num momento mais intempestivo houve o primeiro tapa.
E então, muitos pedidos de desculpas, "eu não sei onde estava com a cabeça", "você tem que entender que sinto ciúmes", "se você não provocasse tanto"... e assim foi.
Eu procurei refazer meu vestuário de modo a não desagradá-lo.
Sentia-me culpada por seu destempero.
Tinha vinte e dois anos, era bonita, voluptuosa e me sentia uma velha com aquelas novas roupas tão comportadas que mais pareciam uniformes de freira.
Deixei de usar maquiagem... não soltava mais os cabelos... e com o tempo deixei de fazer as unhas.
Minha família estranhou, mas eu dizia que não sentia vontade de mais nada daquilo. Mas, era mentira. Tudo que eu queria era manter a serenidade do meu marido.
Mas as coisas não saíram como eu imaginava... Bruno não estava satisfeito.
Começou a implicar com o meu trabalho.
Dizia que eu não precisava trabalhar, que eu tinha tudo que uma mulher precisava, que mulher que trabalha fora é para chifrar o marido... e com isso começou a ir me buscar.
No início, ele se colocava bem na frente da empresa, mas com o passar dos dias ficava de longe, observando.
Não demorou para fazer escândalos...
Eu me sentia envergonhada e já não suportava os olhares dos companheiros de trabalho, que se afastaram de mim.
Pedi demissão e passei a ser apenas dona de casa...
Havia uma pressão muito grande para que eu engravidasse, tanto de Bruno quanto da minha família que não imaginava o que eu passava.
Mas mesmo não usando qualquer método contraceptivo, demorei para engravidar.
A gestação se deu quando já tínhamos dois anos de casados.
Foi uma gravidez tranquila, Bruno parecia outro homem... gentil, amável, romântico, cuidadoso.
Acompanhava quase todas as consultas, vibrava com cada chute que sentia em meu ventre... estávamos felizes.
Júnior nasceu forte e saudável e nós formávamos uma linda família.
Até que Bruno começou a se incomodar com a atenção que Júnior exigia... não gostava de que eu o amamentasse, de modo algum.
Fui obrigada a dar mamadeira para o meu filho e assim evitar discussões...
O meu casamento havia se tornado um pesadelo, onde eu vivia para somente agradar aos desejos de Bruno.
Aos vinte e cinco anos eu não tinha mais identidade.
Fui agredida brutalmente quando o nosso filho Júnior adoeceu e eu, como toda mãe preocupada e amorosa faz, tive a ideia de colocá-lo para dormir em nossa cama...
Bruno ficou furioso e não sei dizer em que momento aconteceu a primeira agressão, só sei que apanhei por querer cuidar do filho que ele tanto havia desejado.
E novamente, ouvi as desculpas, vi as lágrimas de arrependimento... as flores e bombons para que eu o perdoasse.
E eu perdoei!
Olhava-me no espelho e via apenas uma sombra da moça voluptuosa que fui um dia...
Sem vaidade, sem trabalho e com um filho pequeno, restava-me apenas torcer para que Bruno chegasse em casa e tudo estivesse do seu agrado.
Mas a vida prega peças incompreensíveis!
Bruno passou a implicar com tudo que se referia ao cuidado da casa... dizia que eu estava muito ocupada com Júnior e que estava deixando a casa suja. Reclamava da comida, das roupas, de tudo.
Era como se eu fosse uma empregada doméstica que não podia sentar e descansar.
E eu, não sei porque;  mas passei a cuidar da casa como uma máquina.
Lavava roupa, não mais na máquina de lavar, mas na mão... para ter absoluta certeza de que ficaria bem limpa... estendia metodicamente enfileiradas, camisas, calças, cuecas, toalhas... primeiro por tamanho, depois por cores... uma verdadeira loucura.
Mas eu não me dava conta disso.
Bruno exigia sempre mais...
Engravidei novamente. Mas desta vez não foi como antes. Bruno não desejava outra criança e deixou isso bem claro.
Era explícito o seu descontentamento.
Passou parte da gravidez chegando tarde, muitas vezes com cheiro de bebida e olhava-me como se não me conhecesse...
Eu sentia medo nestas horas.
Uma noite, Junior teve pesadelos e veio até o nosso quarto chorando, pedindo para ficar conosco. Bruno esbravejou com ele e o enxotou xingando-o dos piores nomes...
Eu fiquei horrorizada com isso e tomei as dores. O resultado foi a perda da criança que eu esperava... devido ao chute que Bruno desferiu em mim.
Seis anos de casamento, seis anos de tortura psicológica e violência física.
Eu queria o divórcio mas não tinha coragem de pedir... dormia e acordava com a sensação de que Bruno iria me agredir a qualquer momento.
Agora ele me agredia com palavras também...
Xingava-me de porca ( como se assim o fosse), relaxada, medíocre... dizia que ninguém iria querer uma mulher como eu, que não era digna de amor, que não passava de uma imitação de mulher...
Minha auto estima simplesmente não existia.
Sentia-me a pior das criaturas.
Até que um belo dia eu resolvi romper com aquele ciclo de violência...
Contei para minha mãe todo o meu sofrimento, sem medo de críticas, sem meias palavras e pedi socorro.
Foi um choque. Ninguém imaginava algo assim.
Eu  nunca o denunciei, nunca esbocei reação e por isso tudo parecia correr bem aos olhos dos parentes e vizinhos.
Voltei para a casa dos meus pais e dei entrada no divórcio.
Bruno tentou de tudo para uma reconciliação, até mesmo ameaças foram feitas... E confesso que voltei e arquivei o pedido de divórcio.
Foram mais cinco anos de sofrimento, até que numa das brigas, tive meu braço quebrado... agora nosso filho assistia tudo aquilo e eu me sentia envergonhada diante dele.
Foi Júnior quem me disse "Mãe, você não merece apanhar!"
E eu finalmente compreendi o mal que fazia ao meu filho por acreditar que "Ruim com ele, pior sem ele!"
Saí de casa com Júnior e nunca mais voltei.
Durante muito tempo fomos ameaçados por Bruno, perseguidos na rua, tivemos escândalos no portão e senti muito medo.
Mas eu havia decidido que não apanharia mais.
Uma das primeiras atitudes que tomei foi cortar o cabelo e passar um batom... como isso foi maravilhoso!
Foi como redescobrir a vida!
Há pouco mais de um ano consegui o tão sonhado divórcio... uma sensação de liberdade foi o que eu senti. Mas sei que teremos sempre um laço entre nós: nosso filho. Mesmo assim, sinto-me livre.
Trabalho, faço um curso a noite de informática, que eu sempre desejei fazer e tenho novos amigos com quem as vezes me divirto.
O coração ainda não está disponível! Mas ainda acredito no amor.
Não dá pra fingir que nada aconteceu, mas devo dizer que tudo isso só aconteceu porque eu permiti.
Se tivesse mantido minhas opiniões, se tivesse me imposto mais, se tivesse sido menos condescendente... se...
Foi tudo o que eu não fiz que propiciou tudo o que eu vivi.
Pensem nisso, meninas!

*********************************************************************************

Danilo.

"O álcool é um amigo infiel!"

Meu primeiro gole foi ainda na adolescência... como que para ser aceito no grupo de amigos com quem saía nos fins de semana. Como era um pouco retraído, o álcool fazia com que me sentisse mais descontraído e feliz.
Dançava, flertava e me sentia a "cara do pedaço."
E não preciso dizer que no dia seguinte a ressaca era insuportável e como todo mundo costuma dizer, eu jurava que nunca mais colocaria um só gole na boca novamente, só que bastava chegar o fim de semana e lá ia eu!
Cerveja, cerveja, cerveja! Mas com o tempo passei a experimentar outras bebidas mais fortes. O álcool fascina... é como uma prostituta que sacia os seus desejos mais loucos e cada vez mais cobra mais caro por seus encantos.
Cerveja, caipirinha, vodca, uísque... tudo era tão agradável e ao mesmo tempo parecia que eu não estava satisfeito... queria sempre uma dose a mais.
Numa das minhas bebedeiras com amigos, conheci a Carmem... menina de olhos cor de mel, sorriso largo, encantadora.
Iniciamos um namoro conturbado, pois os pais dela não queriam o nosso relacionamento. Acredito, hoje, que nem eu deixaria uma filha minha estar com um cara como eu.  Meu vício pela bebida só fazia aumentar, ao ponto de influenciar no meu trabalho e nos meus estudos. Chegava sempre atrasado e estava sempre pensando no próximo gole como se fosse o ar que respirava.
Não demorou muito para o nosso namoro tomar proporções mais íntimas e logo, Carmem estava grávida... isto com apenas dezessete anos!
Eu já tinha vinte e um...
A notícia caiu feito uma bomba atômica! Eu iria ser pai! Pra dizer a verdade fiquei com medo... não pensava em ter filhos, achava que ela estivesse tomando as precauções... mas nenhum de nós pensou nisso. Fazíamos sexo e pronto.
Tomei um porre daqueles naquele dia... um porre que me custou o meu emprego rsrsrsrsrsr...
Agora eu seria pai e estava desempregado!
Carmem estava nervosa, estávamos numa situação delicada... embora o nosso namoro não fosse bem visto pela família dela, havia uma criança no meio. E os pais dela exigiam uma atitude minha, ou seja: casamento!
Eu não queria casar! Era muito novo, queria curtir mais, "azarar" as garotas na noite... me divertir.
Sei que vou chocar os leitores com o que vou dizer, mas sugeri para que Carmem fizesse um aborto.
Naquela época tudo o que eu queria era sair com os amigos, beber e viver livremente.
Carmem não aceitou... tivemos uma discussão daquelas e foi onde eu a agredi pela primeira vez, dando-lhe um empurrão.
Como forma de consertar a situação, sugeri que fossemos morar juntos até que as coisas melhorassem e pudéssemos então oficializar o casamento... na verdade, eu queria ganhar tempo.
Fomos morar na casa de minha mãe, no meu quarto, adequado agora com uma cama de casal.
Carmem que era filha única, criada como uma princesa, teve que se acostumar a uma nova rotina numa casa com seis pessoas. Eu, meus quatro irmãos ( menores e do sexo masculino) e minha mãe, pois éramos órfãos de pai, policial morto em conflito com bandidos.
Desde o início não foi algo agradável.
Carmem e minha mãe não se gostavam e meus irmãos eram bagunceiros e desorganizados.
Eu consegui um trabalho num lava jato e quase não estava em casa para saber o que realmente acontecia, mas o fato é que ouvia reclamações de todos os lados.
E em consequência disso, a bebida parecia uma excelente companheira.
Bebia para esquecer os problemas, e quando chegava em casa lá estavam todos eles a minha espera.
As brigas com Carmem estavam se tornando uma rotina... e novamente eu a agredi, desta vez com tapas.
Mas o meu teor alcoólico não deixava qualquer lembrança destas agressões e eu me atormentava por isso, enchendo cada vez mais a cara. Aos vinte e dois anos, pai de um menino, com mulher para sustentar e morando dentro da casa de minha mãe, posso dizer que era um alcoólatra de carteirinha. Bebia de tudo, todos os dias. Escapulia do trabalho a qualquer distração do patrão e ia para o bar tomar "uma" que se traduzia em duas, três, quatro... quantos o dia e a minha ansiedade permitia.
Chegava embriagado em casa, não tinha apetite e já estava muito abaixo do peso normal.
Eu não sabia o que era ser pai, marido, filho... eu era apenas um ser que vivia para beber.
Acordava pensando no seu cheiro, seu sabor, a sensação inebriante de estar flutuando...
Perdi o trabalho no lava jato... e perdi todos os outros que consegui arrumar. Numa briga com minha mãe, Carmem decidiu voltar para a casa dos pais...
Não dei um passo em direção à ela, ao contrário; sentia-me livre da responsabilidade.
Nesta mesma época minha mãe arrumou um namorado e colocou dentro de casa... E na segunda noite em que eu cheguei bêbado, fui intimado a procurar outro lugar para ficar.
Na verdade, não me lembro de fato como isso ocorreu, mas de acordo com minha mãe e meus irmãos eu havia tentado agredir o meu padrasto.
A situação ficou complicada pra mim... acabei me abrigando na casa de um primo.
Eu não tinha ideia do mundo ao meu redor, minha vida era beber não importava o que, quando ou com quem. Passei a vender o que ainda havia de valor em meu poder para consumir o álcool.
A fissura pela bebida era algo maior que eu.
Como não tinha emprego, dinheiro ou qualquer outra forma para saciar o meu vício, comecei a vender os objetos de valor que meu primo tinha em casa...
Fazia qualquer coisa para manter o meu vício, acreditava que estava fazendo o certo.
Henrique, meu primo, não demorou a sentir falta de suas coisas... a briga foi violenta e confesso à vocês que foi a primeira vez que apanhei na vida. No mesmo dia estava na rua, sem ter onde morar.
Eu sentia raiva por todos e por tudo, menos por ela, a bebida... não, por ela, não! Eu a amava incondicionalmente! Salivava por ela! O meu corpo precisava dela como que do ar para sobreviver.
A ausência dela causava-me grande mal estar.
Procurei pelos "amigos", mas compreendi que nestas horas você não tem amigos... sempre há uma desculpa para que você não possa ficar na casa deles. E confesso que a minha fama de bebum já era grande entre todos, além de desocupado, endividado e irresponsável.
Passei a morar na rua, literalmente... era um indigente aos vinte e três anos de idade.
Não tinha família, amigos, emprego, nada. Lembrei de Carmem e fui atrás dela... afinal era minha mulher e mãe do meu filho!
Fui recebido pelo pai dela no portão. "O que você quer?" Foram as palavras dele pra mim, que por incrível que possa parecer estava sóbrio, embora de pernas bambas e visão turvada.
"Falar com a minha mulher!" Foi a minha resposta.
Seu Osvaldo deu um sorriso frio em minha direção e respondeu: "Você não tem nada aqui, rapaz! Vá seguir o seu caminho e nos deixe em paz!"
Lembro-me perfeitamente que iniciamos uma discussão e eu tentei invadir a casa, mas debilitado como estava fui facilmente detido e fiquei caído no meio fio, desesperançado, sem rumo, sem futuro.
Foram dez anos nesta vida... dez anos de sofrimento. Virei mendigo, comia resto das lixeiras dos restaurantes, vendia papelão para sustentar a necessidade da bebida, não sabia mais a minha cor, pois não tomava banho.
Quando um dia vi minha imagem refletida num pedaço de espelho, não me reconheci... olhos avermelhados, injetados, barbudo, sujo, não era mais um ser humano.
Era enxotado dos lugares como um cão sarnento, arrumava brigas facilmente, roubava o que quer que fosse que  visse na frente...
A minha amiga era agora a aguardente... das piores, pois não havia como consumir vodca, não havia dinheiro.
Tudo que eu conseguia era revertido para o álcool, este amigo infiel e traidor que destrói a alma muito mais rápido e sorrateiramente.
Em dez anos envelheci cinquenta.
Fui retirado das ruas por uma ONG... com sérios problemas de saúde, com a visão afetada em consequência de brigas onde fui várias vezes agredido nos olhos. Tinha uma ferida numa das pernas que causava-me dores insuportáveis.
A recuperação não foi fácil e ainda hoje aos quarenta anos, sei que sou um dependente em recuperação. Frequento o Alcoólicos Anônimos e tenho plena consciência de que é um dia de cada vez, sempre evitando o primeiro gole.
São muitas as histórias que eu vivi! Todas de perdas! Perdi tudo, mas consegui me recuperar!
Escrevi este relato para vocês, porque acho que serve de alerta.
Não se perde um filho nas ruas e sim dentro de casa... Observe o seu filho, com quem anda, o que pensa, como age... quem são os amigos dele... os sinais estão aí, basta ter atenção e não perder o foco.
Assim como eu não tive um freio ou orientação quanto ao álcool, muito também acham que tem o controle nas mãos. Não temos, ninguém tem. O álcool é um tipo de droga que ilude a primeira vista e continua iludindo, pois você consegue ficar sem ele por um tempo, mas não consegue ficar sem ele definitivamente sem ajuda.
Obrigado.

*********************************************************************************

Eliana

"O príncipe pode ser encantado, mas a consequência é real!"

Eu havia acabado de me separar, quando me envolvi com Sérgio...
Foi uma paixão avassaladora. Um olhar, uma dança e uma atração explosiva e cheia de promessas...
Saímos do samba direto para o motel. Eu nunca poderia imaginar algo deste tipo, mas estava vivendo o momento, dando vasão ao desejo e pouco importava o bom senso.
Precisava me sentir mulher novamente; saber que um homem me desejava, sim! Que eu era tão mulher quanto as outras.
Minha separação não foi das mais agradáveis... saí da relação com três filhos, fora de forma e com baixa auto estima.
Sérgio foi uma luz no fim do túnel.
Meu ex marido vivia dizendo que nenhum homem iria querer ter relações comigo, que eu era frígida, que eu não era atraente... que ninguém iria se interessar por uma mulher com três filhos, estrias e celulite.
Bem, lá estava Sérgio!
Sorriso aberto, do tipo que abre a porta do carro, com "pegada", com palavras doces e encantadoras.
Eu não sabia quase nada dele, mas tudo o que ele me dizia já servia para me sentir a mulher mais maravilhosa deste mundo.
Tivemos uma tórrida noite de sexo, com muita cerveja e banho de hidromassagem.
No dia seguinte, Sérgio pediu meu número de telefone e me deixou algumas ruas próximas da minha casa, como eu havia pedido.
Saímos no fim de  semana seguinte, desta vez direto para um motel... não queríamos perder tempo.
Eu estava feliz com isso. Achava que tinha encontrado alguém que gostava de mim, como eu era.
Ele não parecia notar as imperfeições do meu corpo, ao contrário... explorava cada centímetro com prazer e eu me sentia uma diva.
Continuamos nos encontrando e indo para os motéis da região...
Sérgio falava pouco e parecia realmente interessado nas minhas histórias, estava sempre atento ao que eu dizia. Era maravilhoso poder desabafar sem ser criticada, sem que houvesse apontamentos de erros.
Eu me apaixonei perdidamente por ele. Passava a semana entre o trabalho, casa e os filhos, mas os finais de semana eram todos reservados ao Sérgio.
Brigava com o meu ex marido para que ficasse com as crianças. Eu queria estar com o Sérgio! Queria vibrar em seus braços, sentir tudo aquilo que somente ele me proporcionava.
Vivia com os olhos atentos ao telefone, às mensagens, aos telefonemas na madrugada...
Três meses depois, o primeiro sumiço! Sérgio não apareceu, não ligou, nem passou mensagens.
Fiquei desesperada. Pensei logo no pior... um acidente, um enfarto...
Passei horas angustiantes diante do telefone, sem saber notícias. Eu não sabia onde ele morava... não falávamos sobre a vida dele.
Voltei ao samba e tentei obter informações sobre ele.
Tudo o que eu consegui saber foi que trabalhava no cais do porto... não era um homem de falar de suas intimidades, não andava acompanhado de amigos e ninguém sabia nada sobre ele.
Uma semana depois, lá estava ele no meu portão; com aquele sorriso aberto e uma rosa nas mãos.
Não me lembro de me sentir tão feliz quanto naquele dia!
As minhas perguntas foram abafadas por seus beijos e tudo ficou esquecido.
Continuamos com as nossas saídas de final de semana aos motéis e eu achava que estava vivendo uma relação estável. Acreditava que logo estaríamos morando juntos... sonhava com isso.
Já tínhamos cinco meses de "namoro" quando peguei um forte resfriado...
Neste período, Sérgio não apareceu novamente.
Fiquei mais de quinze dias com mal estar e febre alta, tendo sido diagnosticada com "virose."
Quando Sérgio apareceu deu-me como desculpa, excesso de trabalho no porto...
E novamente estávamos frequentando os motéis, tomando nossas cervejas, nossos banhos de hidro, como se nada tivesse acontecido.
Numa dessas idas aos motéis, lamentei não poder engravidar, pois adoraria ter um filho dele... mas havia feito uma laqueadura do meu terceiro filho. Sérgio sorriu e disse: "Filho pra quê? Não precisamos de crianças entre nós..."
Fiquei triste com a declaração dele, mas compreendi que ele queria dizer que criança tira a liberdade do casal...
Novamente tive outro resfriado forte, com muita febre alta e mal estar. Foram dias de cama, fraca e sem apetite.
Na verdade, fui tendo vários resfriados seguidos e isto passou a me incomodar. Mal saía de um já estava em outro, havia perdido peso e  me sentia debilitada para as tarefas de casa e do trabalho.
Sérgio já não passava mais mensagens, ligava raramente e quase não aparecia nos finais de semana. Dizia que estava ocupado, mas nunca dizia com o quê.
Eu acreditava que fosse excesso de trabalho, pois era melhor crer nisso do que pensar que pudesse estar com outra.
O meu resfriado tornou-se um companheiro insuportável.
Fui ao médico e fiz alguns exames... precisava recuperar o meu dinamismo.
Sérgio não atendia mais as minhas ligações, não aparecia mais aos finais de semana... eu estava desesperada!
Fui até o cais do porto atrás dele.
Perguntei, mostrei a única fotografia que tínhamos juntos, mas ninguém o conhecia.
Foi uma sensação estranha... era a primeira vez que pensava no quanto eu não sabia nada sobre aquele homem.
Nunca me apresentara ninguém da família dele, nunca havia me levado à casa dele, nunca havia dito nada sobre o trabalho dele.
Sérgio sequer me dissera o seu sobrenome.
Voltei para casa com um peso no coração. Havia um enorme sinal de interrogação na minha mente. Quem era ele afinal? Onde estava? O que fazia? Porque não falava de si mesmo?
Mas a minha principal surpresa foi quando a assistente social do hospital onde fiz alguns exames, pediu que a acompanhasse até uma sala... alí, sentada diante de uma desconhecida que me olhava com certa indiferença, recebi a pior notícia da minha vida.
Eu havia sido contaminada pelo vírus HIV!
O chão se abriu sob os meus pés... soropositiva! Soropositiva!
Eu tentei falar com Sérgio... o número não atendia e com o tempo deixou de existir! Nunca mais vi ou tive qualquer contato com ele.
O mais difícil de tudo foi ter que contar aos meus familiares a verdade...
Eu, Eliane; vinte e nove anos, mãe de três filhos, divorciada, estava aidética.
A ficha foi caindo aos poucos... lentamente, de acordo com o passar do tempo e a sensatez que foi tomando lugar. Sérgio nada mais é do que um desses camaradas que propagam cruelmente a doença por ai. Gentil, simpático, o homem ideal... bom amante, bom papo, um príncipe para mulheres de baixa auto estima... na verdade, um veneno mortal e irreversível.
Hoje vivo à base dos retrovirais... aguardando o dia em que alguma doença oportunista virá e o meu corpo finalmente sucumbirá à morte.
Estou há quinze anos convivendo com o HIV. Não tive coragem de recomeçar, abandonei meu emprego devido ao preconceito, passei a trabalhar em casa fazendo salgados para festas...
Vivo um dia de cada vez e sempre que posso alerto as mulheres quanto aos "príncipes" que estão por ai espalhando doenças com sorrisos abertos e nada mais.
Não se fragilize tanto ao ponto de acreditar que contos de fadas existem! O mal está sempre à espreita.
Fui inconsequente, sim... fazia sexo sem proteção, de todas as formas e sem pensar nas consequências. Mas foi Sérgio quem me contaminou. Hoje tenho certeza que de modo proposital.
Cuidem-se, previnam-se, desconfiem sempre, averiguem! A melhor defesa de uma mulher é a prevenção!
Esta é a minha história. Sou Eliane e tenho 44 anos hoje.

*********************************************************************************

Suelen.

"Cortei os pulsos... sobrevivi... mas permaneci morta!"

Fui violentada aos treze, num matagal.
A dor que isso provoca é mais do que física; é insuportavelmente íntima, irreversível e intransferível.
O meu agressor nunca foi encontrado, mas eu o vi todas as noites em pesadelos durante anos... acho que o meu caso nunca foi realmente investigado, é o que eu penso.
Negra, pobre, favelada! Quem se importa?
Eu estou escrevendo isso porque acredito que muitos casos são negligenciados pelo mesmo motivo: descaso!
Sou a sexta filha de dez irmãos... e embora sejamos advindos de comunidade, com o crime na porta de casa, onde muitos não conseguem chegar na idade adulta; posso dizer com orgulho que todos eram honestos e trabalhadores. Meu único irmão morto, morreu por doença. Não tínhamos histórico de bandidagem na família.
Eu não sei o que foi pior pra mim... ser violentada ou encarar as pessoas!
Era tão estranho... as pessoas me olhavam como se eu não fosse deste mundo. Via os cochichos quando eu saía para qualquer atividade fora de casa...
Eu era a "menina estuprada do morro!"
Até mesmo dentro de casa, eu me sentia uma alienígena. Posso comparar a uma fruta estragada dentro de uma fruteira, que todo mundo sabe que está ali, mas ninguém toca.
Eu sentia vergonha. Era como se eu fosse culpada... não sei explicar.
O pior de tudo foi descobrir a gravidez.
Imediatamente o primeiro pensamento foi abortar!
Como carregar no ventre uma criança fruto de um ato de violência? Como conviver com isso? Como encarar o rosto de alguém que vai sempre lembrar algo horrível?
Mas, aborto é crime... teria que recorrer a uma clínica clandestina, era caro e não tínhamos recursos para isso...  minha mãe era Católica Apostólica Romana, adoradora de Maria, vivia fazendo promessas... não aceitou a ideia de um aborto, muito embora meu pai tenha insistido no assunto de diversas formas, incluindo o fato de ser mais uma "boca" para sustentar.
Mas prevaleceu o dito comum: "Onde come um, como dois..." independentemente da minha vontade e do meu horror em ter um filho aos treze anos de um estuprador.
Eu me sentia a pior pessoa da face da terra.
Não via sentido na minha vida... não queria aquela vida pra mim!
E numa madrugada qualquer, num ato de desespero, pois já sentia o feto crescendo dentro de mim, simplesmente cortei os pulsos.
Não lembro de nada, não sei quem me socorreu, como, em que momento... sentia apenas que tudo rodopiava e que eu estaria livre de todo aquele sofrimento.
Foram dez dias de internação... dez dias de orações de minha mãe nos meus ouvidos... dez dias para salvar a minha vida. Promessas foram feitas... por uma vida que eu não queria.
Cortei os pulsos, sobrevivi... mas, permaneci morta!
Passei os meses da gravidez em depressão... sentindo raiva daquela criança que teimava em habitar o meu útero, em esticar a minha barriga, em entorpecer meus seios de leite.
Meu filho nasceu forte e saudável, como que num lembrete assustador de todo o mal que sofri.
Aquilo pra mim se constituía numa violência ainda maior. Recusei-me a dar o peito, recusei-me a pegá-lo no colo, recusei-me a ser sua mãe!
Simplesmente não conseguia. Era mais forte que eu.
Meu pai, embora contrariado; registrou-o como filho legítimo com minha mãe... eu não me importei.
Fugi de casa duas semanas após o parto, pois não conseguiria viver ao lado daquela criança como se nada tivesse acontecido. Nunca mais voltei. Nunca mais soube de nenhum deles.
E quando eu digo que permaneci morta, refiro-me ao fato de que para sobreviver, passei a fazer programas no Calçadão de Copacabana...  e todas as noites adotava um novo nome.
Não é fácil comer comida estragada das latas de lixo dos restaurantes... não é fácil pedir esmolas aos gringos e ser enxotada feito cão sarnento. Restou-me a prostituição.
Fechava os olhos e desligava a minha mente... cada um deles era como o meu agressor... causavam-me a mesma dor embora de forma diferente. Loucura? Talvez...
Quinze anos de calçada, de lágrimas, de solidão, de pancadas de freguês, cicatrizes no corpo e na alma, drogas e de desesperança... até que conheci uma pessoa que me fez acreditar em novas possibilidades.
Nunca pensei em mulheres como parceiras sexuais... nunca imaginei que um dia poderia sequer me apaixonar. Vivi todos aqueles anos apenas por viver, na verdade, sobreviver.
Mas, encontrei em G. algo que nunca encontrei em ninguém.
Sempre fui muito desconfiada, arisca, mas ela conseguiu quebrar as barreiras e degelou meu coração.
Estamos juntas há quatro anos, somos donas de um bar na baixada fluminense... e quando olho para trás, vejo que trilhamos muitos caminhos até encontrarmos um pouco de felicidade.
Sou feliz, sim... mas nunca esqueci o que aconteceu comigo e o que eu fiz disso tudo que vivi.
Sempre tive baixa auto estima, sempre quis ter uma pele mais clara por pensar que assim seria aceita.
G. me deu o que eu sempre tentei encontrar, mas que nunca tive de ninguém: Amor.
E é em nome deste amor que escrevo a minha história... por acreditar que quando se ama verdadeiramente alguém é possível romper todos os preconceitos, tanto os seus quanto os dos outros.

*********************************************************************************

Paula.

"O amor pode ser tanto um presente quanto um castigo..."

Eu me apaixonei desde o primeiro momento em que o vi. Fiquei com a imagem dele no pensamento... sabe quando não se consegue deixar de pensar em alguém? Quando tudo que se quer é ver novamente, estar perto e ouvir o som da voz? Pois, foi assim que eu fiquei.
Não era um homem bonito, não fazia o meu "tipo". mas não conseguia deixar de pensar nele. Talvez tenha sido o modo como me olhou, desnudando-me, invadindo minha alma, como se já soubesse tudo de mim.
Eu trabalhava numa empresa varejista de eletrodomésticos e fomos apresentados por um colega de trabalho... trocamos um aperto de mãos que arrepiou todo o meu corpo. Foi como um choque na dorsal.
Ele estava com a namorada, eu não tinha como me aproximar mais do que era convencional... mas eu sentia o olhar dele sobre mim. Era algo que queimava em minha pele. Não tem como explicar estas coisas.
Eu estava com vinte e dois anos na época... não tinha ninguém para chamar de "meu."
Alexandre passou a fazer parte da minha mente como o ar que eu respirava. Nem mesmo eu entendia como aquilo era possível.
E não medi esforços para saber mais sobre ele... na cara dura, pedi ao meu colega o telefone dele. Inventei uma desculpa esfarrapada e assim que consegui o número, liguei.
Estava trêmula, ansiosa, sem saber o que iria dizer... era loucura e eu sabia que era.
Mas era mais forte que eu, do que a lógica, do que a sensatez.
Alexandre era professor de História do Estado e era praticamente noivo da garota com quem estava quando o conheci...
No meu telefonema, dei como desculpa uma "prova" que pretendia fazer num concurso e pedi que me desse umas aulas particulares para tirar dúvidas...
Ele foi profissional. Não deu qualquer margem para outros assuntos. Disse-me o valor, dias e horários que poderia dar as aulas e nada mais.
Eu estava disposta a conquistá-lo. Não importava nada, nem ninguém. Passei a me reparar diante do espelho e a fazer comparações entre mim e a moça com quem ele pretendia se casar. Eu era mais bonita, mais interessante fisicamente, possuía seios maiores que os dela, mais quadris, cabelos mais lisos... com certeza, eu faria melhor par com ele, do que ela.
E lá fui eu, para a minha primeira aula particular de História...
O apartamento dele ficava na Lapa, era modesto, mas organizado. Eu estava nervosa, mas decidida a seduzir aquele homem de qualquer jeito.
Havia colocado um vestido decotado, estava maquiada, salto alto, perfume floral... me sentia uma verdadeira Marilyn Monroe... pobre de mim.
Podem falar o que quiserem de mim e das minhas atitudes, mas naquele momento tudo o que me importava era estar com Alexandre. Fazê-lo meu, só meu!
Ele me recebeu cordialmente, ofereceu-me água e café e logo partiu para o lado profissional, indagando-me sobre a tal "prova" que faria...
Mas eu não consegui esconder as minhas reais intenções e disse à ele o que estava acontecendo. Alexandre ficou mudo, ouvindo tudo em silêncio... não demonstrou surpresa ou qualquer outro sentimento a respeito. Quando terminei de contar, senti que estava com o rosto afogueado... eu me sentia excitada, louca para beijar aquele homem, como se disso dependesse a minha vida.
E tudo que eu ouvi foi: "Tenho compromisso, Paula!"
E eu respondi: "Eu sei..."
E ele continuou: "Não se importa com isso?"
Ao que eu me ouvi dizendo: "Não!"
E eu me vi nos braços dele. Fizemos amor ali na sala, no chão, no sofá, quantas vezes o desejo deu sinal... não voltei para casa e ele desligou o telefone...
Fui invadida por ondas de prazer que nunca senti na minha vida e que nunca mais vim a sentir.
No dia seguinte, não fui trabalhar... estava exausta, mas estava feliz.
Iniciamos uma maratona sexual que varava as madrugadas e quase sempre eu faltava ao trabalho no dia seguinte.
Não demorou muito e fui despedida. Dane-se! Não tinha problema, logo arrumaria outro e eu não tinha com o que me preocupar, afinal todas as minhas despesas resumiam-se às minhas vaidades. Morava com os meus pais, não tinha grandes responsabilidades.
Tudo o que eu queria era estar com Alexandre, ser amada, possuída por ele! Sentia-me a mulher mais linda do mundo e tripudiava diante da fotografia da futura noiva dele... idiota! Enquanto ela montava o enxoval, eu saboreava a sobremesa.
Mas, Alexandre começou a me evitar... de repente, não atendia mais aos meus telefonemas, desmarcava nossos encontros, dava desculpas para que eu não fosse à casa dele.
Até que um dia, terminou tudo dizendo-me: "Não dá mais, Paula!"
Eu fiquei sem ação num primeiro momento, mas então questionei: "Como assim, não dá mais? Vai me dizer que descobriu agora que está apaixonado pela sua noiva insossa?"
E tivemos uma discussão horrível, onde ele me disse as piores coisas que se pode dizer à uma mulher.
Saí de lá arrasada, mas com um sentimento ainda maior que o amor que sentia por ele, a vingança!
Enviei uma carta anônima para a noiva dele... contei sobre nós... dei detalhes, dias, horários, as desculpas que ouvia ele dizer ao telefone para ela, estando ao meu lado...
Queria acabar com o relacionamento deles a todo custo.
Passei a segui-lo no trabalho, aonde quer que fosse, fazia escândalos, ameaçava me jogar na frente do carro dele.
Numa dessas vezes ele me empurrou e eu fiquei caída no meio fio, como uma indigente.
Não demorou muito e todos que faziam parte do meu circulo de amigos ficaram sabendo da situação. Choveram conselhos e frases do tipo: "Mas, você é tão jovem e bonita... logo vai se apaixonar por outro!"
Não queria saber de ninguém, queria Alexandre. Só ele, mas ninguém.
Perdi o apetite. Vivia para seguir aquele homem pela cidade, sabia todos os seus passos, com quem falava, onde comia, que horas saía de casa, quando voltava... não conseguia fazer outra coisa.
Ligava para ele de madrugada, gritava ao telefone que ele era meu e de mais ninguém.
A tal noiva não aguentou a situação e terminou o relacionamento em algumas semanas...
Eu me senti vitoriosa e isso me deu mais gás.
Ele estava livre para mim! Agora não tinha desculpas.
Mas Alexandre me ignorava completamente, chegando a dizer que: "Nada, nem ninguém vai me fazer ficar ou gostar de você, Paula!"
Porquê? Porquê não? Eu não entendia e me perguntava, afundando na bebida. Exatamente, eu comecei a beber incontrolavelmente. Bebia e fumava.
Era uma forma de suprir a falta dele... uma forma de sanar a minha ansiedade.
Eu desejava tanto aquele homem que não sentia o quanto me destruía com isso.
Dormia e acordava pensando nele, ele, ele, ele, ele...
Alexandre deu queixa de mim na delegacia por destruição de patrimônio, pois eu quebrei o vidro do carro dele, ao vê-lo saindo do trabalho com uma outra mulher.
Cheguei ao extremo de agredir  uma garota que estava com ele na porta do prédio onde morava...
Eu estava ensandecida, mas achava que estava tudo normal.
Eu só queria que ele ficasse comigo.
Meus pais não entendiam o que estava acontecendo comigo... tentaram ajudar com conselhos, mas eu não ouvia ninguém.
Minha vida era vigiar a vida de Alexandre, beber até ficar inconsciente e fumar desmedidamente.
Logo experimentei o crack... sensação de letargia, fazia não pensar.
O problema é que cada vez mais eu precisava daquela sensação porque a dor da rejeição era cada vez mais insuportável.
Afundei no crack, como quem mergulha de cabeça num poço sem fundo.
Agredi minha mãe, perdi os meus amigos, abandonei minhas vaidades, vendi o que tinha para consumir mais e mais a maldita pedra.
Saí de casa um dia e por algum motivo, que eu não me lembro, não voltei. Não sabia mais onde era a minha casa, o meu lugar. Fiquei alguns dias morando nas ruas, andando com os indigentes consumidores da pedra. Troquei sexo por um cachimbo...
Fui resgatada, internada e por um milagre divino, sobrevivi.
Hoje, eu sei que sou dependente química em permanente recuperação... sei que se eu experimentar um trago, estarei novamente na mesma situação de antes.
Alexandre nunca me visitou ou me estendeu a mão. Está casado com uma mulata muito bonita, tem um filho... ainda tenho notícias dele... sempre tenho. Nunca vou conseguir esquecer.
Não bebo, mas ainda não consegui me livrar do cigarro... funciona como válvula de escape das minhas tensões. Tenho me do de ir á rua sozinha, fico em casa na internet, olhando o mundo através da tela do computador.
Estou com vente e sete anos... me sinto velha, me sinto perdida. Parece que este mundo não me cabe.
E ainda penso nele... todos os dias, como nos dias em que sentia prazer em seus braços.

*********************************************************************************

Kelly Cristina...

"Toda inocência um dia é roubada!"

Cresci vendo meu pai espancar a minha mãe.
Um dia era por que a comida não estava pronta, no outro devido ao choro de um dos meus cinco irmãos, pela camisa não passada, pelo sol... pela chuva... por tudo e por nada.
Desde que me entendo por gente que a violência fez parte de minha existência.
Nossa casa era um ambiente de medo... tínhamos receio de respirar quando meu pai estava em casa.
Eu me sentia trêmula junto dele, estava sempre com um copo de bebida nas mãos, fumando um cigarro  barato e xingando vários palavrões por qualquer motivo. Nunca foi capaz de me fazer um carinho sequer. Era um homem  ríspido.
Minha mãe era uma guerreira... lavava, passava, cozinhava, cuidava de todos nós e ainda aturava as grosserias e espancamentos. Nunca a vi reclamar.
Eu não entendia porquê de tudo aquilo e cresci revoltada com meu pai.
Foi aos onze anos que tudo começou a ficar pior pra mim...
Numa noite qualquer da vida, eu senti que ele me apalpava nas partes íntimas, eu quis gritar e protestar, mas ele tapou a minha boca.
Noite após noite, lá estava ele, apalpando, dizendo coisas no meu ouvido, dizendo que eu era uma vagabunda...
Não demorou muito e eu já estava tendo relações com meu pai como se fosse uma mulher adulta.
Afirmo sem medo de errar, que minha mãe não somente sabia o que acontecia nas madrugadas na minha cama, como foi conivente.
Acho que era um alívio para ela, não tê-lo como homem na cama.
Menstruei aos doze anos... e nesta idade já sabia muito sobre sexo!
Embora tenha sido deflorada por meu pai, aprendi a ter prazer com outros garotos do bairro onde morava... transei com vários deles, na tentativa de poder suprir um vazio imenso que sentia no peito.
Pode parecer promiscuidade, e acho que fui mesmo bem promíscua, mas naquela época eu só queria sentir um pouco de felicidade,
Fiquei conhecida como a "vadiazinha" do bairro. Todo mundo queria o seu quinhão.
Logo passei a cobrar meu "favores"...
Ninguém em casa reclamou do dinheiro que eu trazia, ao contrário, meu pai passou a administrar as minhas "atividades"!
Por mais incrível que possa parecer eu me prostituía com o consentimento dos meus pais...
E quando eu menstruava e não queria aceitar um freguês, meu pai me espancava. Dizia que eu era uma ingrata, uma ignorante.
Há muito tempo que eu não sabia o que era uma sala de aula... não havia tempo para estudar, tinha que atender aos fregueses, saciá-los!
Mas o coração é terra que ninguém pisa, é traiçoeiro...
Eu me apaixonei por um dos meus fregueses. Era um homem bom, carinhoso, que falava de outras possibilidades, que muitas vezes pagou apenas para ficar deitado ao meu lado conversando sobre um mundo que eu não conhecia.
Jeremias... meu bom amigo! O homem que me fez acreditar que era possível ser feliz. Parar com tudo aquilo.
Eu tinha catorze anos, ele estava com cinquenta! Casado, pai de três filhos, taxista!
O homem que um dia propôs uma fuga e eu aceitei. Queria desesperadamente conhecer outras realidades, outro tipo de vida.
Fugi com Jeremias para São Paulo, onde ele me instalou num pequeno apartamento e durante alguns meses pude viver um sonho de amor.
Para despistar a curiosidade das pessoas ele me apresentava como sua sobrinha.
Foram meses de alívio, de sonho, de uma outra possibilidade.
Mas um dia ele não veio mais...
Simplesmente não apareceu dia nenhum, até que a esposa bateu a minha porta, assustada em me ver, tanto quanto eu à ela.
Então, eu soube da morte do homem que me ensinou o amor...
Fui jogada na sarjeta, como um cão leproso.
E para encurtar, tudo que vivi em quarenta anos de vida que hoje eu tenho, digo a vocês que as vezes a vida nos prega peças horrorosas...
O sonho de estudar, ter uma profissão nunca se concretizou.
Conheci todos os tipos de homens na cama, gordos, magros, feios, bonitos, secos, carinhosos, violentos... mas nunca conheci alguém como Jeremias novamente. Nenhum deles olhava para mim como um ser humano e sim como um corpo a ser usado e descartado.
Com o tempo, os fregueses deixaram de ser muitos devido a idade, a obesidade, as rugas, os ferimentos causados por agressões... então, eu também comecei a prostituir outras garotas.
Fui tão sórdida com elas quanto foram comigo.
Não sei por onde anda a minha família, não quero saber de nenhum deles... espero que estejam mortos, pois nenhum deles foram o que se pode chamar de irmãos.
Sou cafetina, sim! Mas não obrigo ninguém a ser prostituta, todas as que conheço e trabalham comigo, fazem porque querem.
Perderam a inocência em algum momento da vida, assim como eu...
Nem tudo é escolha, muitas coisas são necessidades. E depois de um tempo você não tem como refazer passo algum, porque o preconceito impede, assim como o hábito de tão somente ser mestre naquilo que faz.

*********************************************************************************
Anônimo...

"Todo julgamento tem uma forma de condenação!"

Eu prefiro manter a minha identidade oculta... muito por vergonha do que aconteceu comigo e muito também por não querer meu nome exposto.
Querendo ou não as pessoas sempre julgam e condenam...
Nasci numa cidade do interior, onde todo mundo conhece a família de todo mundo, sabe dos segredos, fuxicam e comentam uns com os outros.
Minha primeira experiência sexual se deu aos sete anos... estava numa roda de moleques, brincando no riacho que serpenteava a cidade, naquelas brincadeiras inocentes de criança. E sempre tem um garoto mais velho, mais sabido, mais sacana que apresenta aos outros o que todo adulto faz escondido.
Começou com carícias, que não há como negar, eram sensações boas.
Depois, ainda achando aquilo estranho, a felação (ou simplesmente sexo oral em garotos).
Aos oito anos eu já sabia bem o que devia fazer com um pênis...
Meus pais eram católicos ferrenhos, do tipo que não perdiam a missa por nada, que comungavam e se confessavam sempre... não podiam imaginar que eu estava conhecendo os segredos do sexo com tão pouca idade. Naquela época tudo relacionado ao sexo era pecado. Tudo que se aprendia era na prática das ruas... por observar o boi no pasto, o cachorro nas esquinas...
Aos nove anos, tive minha primeira relação sexual de fato, com penetração... com um garoto de apenas catorze anos!
Não sei como é em outros lugares, mas ali onde eu morava me tornei a atração principal entre os moleques.
Fiquei conhecido nas rodas dos garotos como "bumbum doce"... todo mundo queria!
Não pensem na minha história como depravação... nem como promiscuidade, não!
Naquela época os pais não conversavam com os filhos sobre sexo, era um tabu. Homossexualidade então, era um pecado mortal.
O fato é que eu não me sentia atraído por meninas. Gostava delas, andava com elas, mas não me via envolvido por nenhuma.
Aos dezessete anos tudo veio a tona... fui flagrado e espancado por meu pai, Virei notícia na cidade e motivo de chacota.
Expulso de casa, não tive opção senão pedir abrigo de porta em porta. Dormia cada dia na casa de um vizinho... mas nada que pudesse ficar muito tempo, parecia que eu era portador de uma doença contagiosa...
A solução foi sair da cidade, cair no mundo, não olhar para trás.
Sentia muita saudade de casa, de minha mãe,,, mas sabia que não teria mais volta. O preconceito era mais forte que o amor que diziam sentir por mim.
Nesta minha desventura pela vida, fui engraxate, lavador de carros, malabarista de sinal de trânsito... fiz de tudo um pouco para sobreviver, menos me prostituir ou roubar.
Descobri que possuía veia artística aos dezenove anos, quando por acaso participei de um espetáculo de circo.
E foi viajando com o circo que descobri o mundo... Chile, Peru, Itália, Rússia. Grécia... quantos mundos possui a Terra e que não conhecemos...
Aprendi coisas novas, apanhei, chorei, fui enganado, amado, traído e humilhado, vivi!
Conheci o grande amor da minha vida, estamos juntos até hoje, entre brigas, idas e vindas, mas com muito amor.
Nunca fui promíscuo, como muitos possam imaginar... a vida me ensinou vários caminhos, nem sempre foram fáceis ou bons de serem vividos, mas foram tudo o que eu precisava para me tornar o ser humano que sou hoje.
O que eu quero contando a minha história é dizer que: os pais não devem rejeitar seus filhos por sua sexualidade. O diálogo deve ser parte de toda e qualquer relação numa família.
Talvez se meus pais tivessem olhado para a minha situação com amor, tudo tivesse transcorrido de outra forma. O fato que é que o amor deles foi a minha maior perda na vida. Precisava me sentir amado independente de ser gay ou não.
Sou grato aos valores que me deram, aos ensinamentos que recebi, pois isto ajudou a formar o meu caráter, mas em nenhum momento deixei de sentir saudades do seio familiar.
Durante anos deitei a cabeça no travesseiro e chorei por isso.
Um filho não pode ser mais ou menos amado por que é homossexual... o caráter de um homem não está no seu sexo.
O inusitado de tudo isso é que hoje estou na fila da adoção... para dar a uma criança todo o amor que tenho dentro de mim. Pois na minha concepção, ser pai ou ser mãe está no sentido de poder dar de si mesmo ao outro.
Pensem nisso! Não julguem alguém por sua sexualidade, julguem pelo amor! E talvez não haja julgamentos, mas apenas entendimento!
Obrigada.
*********************************************************************************

Márcia.

"Rever o passado é enfrentar muitos demônios!"

Minha infância foi trágica. Meu pai matou minha mãe à pauladas, por ciúmes, por maldade e por desumanidade. Fui criada por uma tia, que sempre me olhou com indiferença, como se eu fosse a culpada por todos os males do mundo. Nunca exerceu um papel significativo na minha vida, nunca se importou comigo, nunca foi uma amiga. Era uma parente, nada mais. Significava um teto.
Cresci revoltada, com muitas dúvidas e inseguranças que trouxeram muitos problemas para minha vida. A primeira experiência sexual foi com onze anos, com um moleque que era vizinho de onde eu morava... e houve tantas experiências sexuais...
Primeiro com garotos, depois com homens mais velhos... era uma fuga do inferno que eu vivia. Sentir prazer era bom, era usufruir de um mundo colorido que eu não conhecia no meu dia a dia.
Aos treze engravidei. E confesso que não sabia ao certo quem era o pai do meu filho. Sequer tinha noção do que era ser mãe... Nem tinha certeza de que queria aquela criança.
Fui expulsa de casa. Minha tia não queria outra boca para sustentar, ainda mais uma boca sem pai.
Ganhei abrigo da igreja  do bairro...
A esta altura não frequentava mais a escola. Nem pensava em nada disso.
Eu descobri que estava sozinha e que tinha que lutar pela minha sobrevivência...
Quando a criança nasceu, eu descobri um outro mundo. Acho que foi a minha verdadeira descoberta da vida. Olhar aquele rostinho lindo e saber que dependia de mim, transformou a minha maneira de ver as coisas.
Davi nasceu forte, saudável, tinha olhos brilhantes, como se quisesse falar.
Fiquei desesperada quando percebi que não tinha como amamentá-lo... meus seios não produziram leite, por mais que eu comesse canjica, bebesse água... nada!
A única solução foi a mamadeira!
Por um tempo recebi ajuda da igreja para alimentar o meu filho, mas depois de alguns meses a ajuda já não era suficiente.
Tive que deixar o meu pequeno Davi na creche da igreja e trabalhar... trabalhar no que aparecia, trabalhar no que eu conseguia como emprego. Lavava banheiro de bar, era garçonete de boteco, era acompanhante de pessoas doentes, era qualquer coisa que garantisse o sustento do meu filho.
Fui para a "pista" algumas vezes, era preciso. Davi estava crescendo rápido, precisava de roupas, sapatos, comida... precisava de uma casa!
A primeira vez que ficou doente eu quase enlouqueci de preocupação... Bronquite asmática! E foram muitas internações, muitas dificuldades.
E dinheiro nenhum do mundo parecia suficiente para tanta despesa.
Perdi a conta de quantas vezes deixei de comer, de vestir, de cuidar de mim para cuidar dele. Para que ele pudesse ficar bem... para ver aquele rostinho lindo sorrindo.
Penso que este deve ser o que sente toda mãe. Não devo ter agido diferente.
A cada crise de Davi, eu entrava em desespero.
A cidade do Rio de Janeiro pode ser linda e maravilhosa, mas também é cruel como qualquer cidade grande, onde o cidadão não possui o suficiente para viver.
A saúde pública não andava bem das pernas... meu filho foi internado numa emergência de hospital, mas não recebeu as atenções devidas.
Passei dias ali, de pé ao lado da maca, segurando sua mãozinha com força, como se com isso eu lhe pudesse transmitir mais vida. A cada passagem de um médico ou enfermeira, eu suplicava que ajudasse o meu Davi...
Eu era só uma menina de quinze anos...
Posso dizer que vivi os piores dias da minha vida!
Vi o meu filho definhar. Eu definhei.
Não era permitido dormir no hospital e cada vez que tinha que deixar o meu pequeno Davi ali, eu achava que iria morrer.
Nessa época eu morava num quarto com banheiro, no Morro da Providência... saía cedo para o hospital, chegava e tentava descansar para o outro dia, mas a minha mente estava naquela maca.
A greve do sistema de saúde era um grave problema e exatamente naquele momento estávamos passando por isso. Além da falta de profissionais, havia falta de medicamentos.
Lembro de ter saído do hospital numa tarde ensolarada de domingo, deixando o meu filho com os seus olhinhos brilhantes de febre, pedindo pirulito... estava magrinho, mas havia um brilho tão nítido em seus olhos que enchia o meu peito de esperanças.
Não existe no mundo uma dor tão profunda quanto a dor da perda de um filho.
Na manhã seguinte de segunda feira, meu Davi não estava mais na maca... era somente um corpinho endurecido numa pedra fria do IML do hospital, aguardando que eu o reconhecesse.
Rever o passado é reencontrar estes demônios que me atormentaram por anos.
Enterrei o meu Davi, mas nunca esqueci o seu olhar pra mim...
Não existe no mundo um amor maior que este... não há laço mais profundo.
A minha dor virou saudade, mas nunca será esquecimento. Enquanto eu viver, guardarei comigo a presença constante do olhar do meu Davi.

*********************************************************************************







Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

O Homem morre quando deixa de Sonhar!

Por Um Fio