CONTOS

DIA DE DOMINGO!


O dia parecia mais radiante, ensolarado, com o canto dos pássaros entre os galhos de árvores no quintal. Havia um certo burburinho ao redor, todos em expectativa da chegada de alguém.
De todos os dias da semana, o domingo era especial! Era quando as visitas podiam ficar a tarde inteira com os seus entes queridos, quando podiam conversar mais, trocar mais que palavras, um pouco de afeto.
A casa de repouso ficava em festa pelo menos uma vez ao mês. Era o domingo especial... quando se permitia música e festejava-se o aniversário de alguém.
Havia quem trouxesse um violão e tocasse para os internos, outros liam em voz alta algum poema ou conto, tornando a tarde de visita algo muito agradável. Por algumas horas era possível esquecer onde estavam.
Era estranho olhar ao redor e não reconhecer os próprios móveis simplesmente porque não estavam lá... nada ali era de propriedade de ninguém, senão os objetos pessoais. O constante cheiro de éter fazia com que todos se dessem conta de onde estavam. 
Mas o domingo desfazia qualquer dessas certezas... era como estar novamente em algum lugar muito peculiar e de onde nunca deveriam ter saído. E quando os netos vinham, era a festa completa... risos, abraços, joelhos ralados, tantas novidades para contar.
Era interessante notar o quanto todos procuravam se ajeitar, arrumando com esmero os cabelos raleados e grisalhos, vestindo roupas menos surradas, borrifando gotas de perfume para espantar o cheiro de naftalina...
E no fim do almoço, a espera!
A casa abrigava cerca de vinte internos, alguns acamados, outros que ao envelhecer preferiram a segurança de um lugar assim e ainda os que com o passar dos anos, perderam espaço no seio familiar. 
Entre todos eles, havia dona Célia. 
Magrinha, com seu coque bem arrumado na nuca, olhar de quem viveu de tudo na vida... olhando para ela, tinha-se a impressão de que fosse partir ao meio, tamanha a sua delicadeza. Não era uma interna de muitas palavras, não. 
Diferentemente dos outros, não era de comentar sua vida ou queixar-se de nada. Gozava de boa saúde no alto dos seus noventa anos, era amante da música clássica e vez ou outra dedilhava alguns acordes ao piano da sala de estar.
Ficava sentada na varanda, bem próxima da entrada principal... balançava a cadeira devagar, o olhar perdido em algum ponto entre a casa e o portão.
Seus olhos já embaçados, muitas vezes pareciam enxergar figuras do seu passado, numa miragem sádica daqueles que partiram ou que simplesmente a esqueceram.
Sua memória já não era a mesma, misturando fatos, nomes e lugares. Sentia saudades, mas as vezes não sabia dizer de quê. Olhava ao redor, sem muito interesse. Acreditava que estavam todos aguardando a vez da partida... alguns se iludiam com visitas, outros denotavam que a morte não tardaria a chegar.
Gostava de ouvir o canto dos pássaros, o farfalhar do vento nas folhas das árvores, o frescor da brisa, como quando fora criança e brincara descontraída ao sabor do vento. Tantas coisas perdidas no tempo. Não havia para quem contar. A velhice era solitária... poucos davam atenção. 
Ela parou de falar quando percebeu que ninguém de fato a ouvia. Estava cansada de pessoas educadas que olhavam para ela como se fosse parte da decoração.
Tinha filhos, tinha netos e até bisnetos... todos bem encaminhados. Todos acreditando que a velhice era somente dela... 
Não saberia dizer quando fora a última visita de um deles. Mas sabia cada palavra trocada e quanto tempo cada um esteve por ali... era como se tivessem medo de demorar e nunca mais poder ir embora. Não sabiam o quanto tê-los ao lado era importante. Um abraço, uma palavra qualquer... algo que lhe fizesse sentir viva.
Dona Célia fechava os olhos e continuava balançando a cadeira devagar. Num vai e vem entre o presente e o passado, sem pressa. Não havia mais o que fazer. Quando se é jovem todos pensam que tem o tempo nas mãos, quando se é velho percebe-se que o tempo é tudo que não se tem.
Não temia a morte. Não! Temia essa vida...  
O redemoinho rotineiro entre remédios, doenças e óbitos... um por um e todos estavam partindo. Sua geração estava por um triz. 
Observava tudo somente por ouvir os sons ao redor de si. Sua mente viajava para outros tempos, outros sons... 
Tinha plena consciência de que o seu tempo estava acabando. Quando não se encontra mais lugar no mundo é porque a vida já terminou. Ela sentia saudades dos filhos pequenos, quando podia segurá-los nos braços pelo tempo que desejasse. Quando ouvia o portão bater com a chegada de um deles. Quando os alimentava e se derretia com a presença de um simples sorriso.
Talvez a saudade fosse a única dor que sentisse. 
Sua pele enrugada sentia falta de um beijo ao dormir... 
Dona Célia abriu os olhos novamente, fixando-se no portão. A esperança era sua companheira. Talvez alguém viesse... talvez alguém se lembrasse... talvez um deles não estivesse tão ocupado consigo mesmo. 
Era um dia como outro qualquer, mais um domingo. Mas talvez fosse o último dia. Gostaria muito de partir e não levar consigo tantas saudades. 
A tarde estava encantadoramente ensolarada, numa doce ironia com as suas pernas fracas. As limitações do corpo não impediam que sonhasse. Parentes entravam e saíam... 
Aos poucos o burburinho ia diminuindo. 
E a tarde vinha e a tarde ia... ninguém para visitá-la.

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